MEMORABÍLIA
Texto curatorial de Ane Valls - Exposição Individual "Memorabília"
Cacau Weimer propõe uma atenção radical ao que é aparentemente familiar, convocando o espectador a reconfigurar suas próprias relações com aquilo que habita seus espaços. O conjunto de obras aqui reunido busca instaurar um lugar de permanência afetiva, ou ainda, um território em que cada objeto, cada cena, adquire densidade simbólica e ressoa como fragmento de uma narrativa maior.
O título memorabilia — palavra que evoca lembranças queridas, objetos carregados de memória e que contam da preciosidade de uma vida — funciona como chave poética para a leitura da exposição. Neste contexto, as telas não são apenas registros do cotidiano, mas verdadeiros relicários visuais, que conservam traços, temporalidades íntimas e vestígios em repouso.
Repetição e reapropriação produzem uma espécie de arquivo íntimo no qual as próprias obras dialogam entre si, num jogo de espelhos em que a reminiscência e a materialidade se entrelaçam. A citação é um procedimento que, ao incluir uma imagem ou representação de um quadro dentro de outra obra de arte, põe uma constelação em movimento, na qual elementos reaparecem sob novas formas, deslocados e reconfigurados, mas sempre reconhecíveis.
As obras reimaginam os itens que povoam espaços pessoais, e invocam imagens privadas e cotidianas. Ao oferecer cenas de uma casa habitada com vivacidade, suavizado pela inclusão de plantas e muita cor, a artista cria um ambiente total que é ao mesmo tempo tátil e ausente. Os espectadores parecem habitar as próprias pinturas, à medida que Cacau nos conduz cada vez mais para dentro deste mundo fechado em si mesmo, onde as figuras humanas não aparecem em nenhum dos cenários, convidando a quem encontra a obra que o faça.
A série “Objetos de casa”, que mantém a mesma paleta vibrante presentes em suas pinturas, ganha espessura simbólica e procura revelar cada objeto como portador de narrativas silenciosas. Ao isolá-los, a artista atribui a cada elemento uma presença quase autônoma em que o objeto material é mantido como um item com voz própria.
O que pode compor a nossa ideia de morada?
Cacau Weimer não busca domesticar essa questão. Ela as mantém abertas, à maneira de uma janela entreaberta por onde se atravessa à procura de elementos que façam do gesto o seu próprio espaço de permanência.
Ane Valls | curadora